quarta-feira, 30 de maio de 2012

Eu já fui um homem

Do lápis ao teclado

— Eu já fui um homem





Ontem, depois das minhas conversas com Ana, sonhei que fui um homem.

Nesse sonho eu me via de fora para dentro e de dentro para fora. Sentado numa poltrona de couro velho, a iluminação era fria e eu vestia um terno preto a rigor. E usava um chapéu. Um belo chapéu.
Mas essa época era antiga, por volta da década de 40.
Quando levantei da poltrona, me senti um pouco tonto e fui até o balcão beber um uísque com gelo. De repente dois homens com máscaras, sentaram um em cada lado e me conduziram até outra sala. Quando entrei era uma boate de strip-tease, onde muitas mulheres bonitas dançavam e se insinuavam. Havia uma música alta tocando, mas eu não ouvia. Pum!
De repente eu estava sentado em uma mesa junto a outros homens que fumavam charuto e jogavam poker, e acredito que todos eram meus amigos. E casados, pois todos tinham aliança, até eu. E nela estava escrito Ana. Pensei de imediato – Ana?
Mas antes que eu me questionasse, todos começaram a gritar excitados pela dançarina tão aguardada da noite. Uma loira de belas curvas e boca carnuda, cujo único traje era uma lingerie vermelha e meias 7 e 8. Dançava no palco e eu acompanhava todos os seus movimentos. Ela me olhou e parecia me conhecer. Descia as escadas e veio em minha direção, meu coração começou a acelerar, chegou bem perto e passou as suas mãos nas minhas pernas. Voltou e continuo a dançar no palco. Meus extintos famintos primitivos só queriam uma coisa naquele momento...
Pum! De repente eu estava num corredor vazio com a loira da boate e eu estava a beijando e sentia muito calor e minhas mãos estavam quentes. Falamos algumas coisas em sussurros e fomos para um quarto. Lembro-me de beijá-la, deslizar minhas mãos pelo seu cabelo. Apertar seus seios voluptuosos, abrir seu lingerie com apenas uma mão, entre outras coisas. Lembro que fui homem. Pum!

Quando acordei já era de manhã e ainda estava naquele quarto que parecia ser dela, da loira que dormia ao meu lado. Levantei da cama e lembro de me vestir. Colocar uma cueca, a calça larga, o cinto, a regata branca e o suspensório. Sentei na beira da cama e ascendi um cigarro.
Eu me lembro de tragá-lo e ver a fumaça que fazia. No meu sonho eu gostava de fumar. A loira acorda e me abraça por trás, falou alguma coisa, mas eu não ouvia, aliás, nada ouvia nesse sonho. Mas sentia. E por alguma razão, descobri que a loira não era apenas uma dançarina que eu dormi apenas uma noite. Era também minha amante. Eu traia minha mulher.
E lembro-me de me espantar e ao mesmo tempo não me importar com isso.

Pum! Eu estava no meu carro, mas ele não ligava, desci e fui olhar o motor. Eu sabia qual era o problema (eu sabia!) e concertei. Lembro que fui homem. E minhas mãos ficarem sujas de graxa. Estacionei em frente a minha casa. E era uma casa bonita e modesta. Duas crianças correram e me abraçaram. E por alguma razão eu sabia que eram meus filhos e os abracei forte. Uma linda mulher aparece na porta e sorri com os lábios, sabia que era minha mulher, beijei-a na testa e pum! Estava na cozinha e minha mulher fazia panquecas e cheirava muito bem. Usava um avental branco e batia a massa de panqueca. Eu levantei da cadeira e a abracei por trás, e começamos a dançar ali mesmo. Eu ainda não a descrevi né? Era linda, tinha bochechas arrosadas, olhos castanhos e meigos. Cabelo preto e curto até o ombro, delicada, usava um vestido de florzinhas, até um pouco a baixo do joelho. Eu lembro. Lembro que a amava.
Pum! Eu terminava de fazer a barba no banheiro e minha esposa saia do banho usando uma saída de banho e penteava os cabelos com uma escova macia. Fui até ela e a beijei. E me lembro de ser muito carinhoso. E ela também, muito carinhosa. Fizemos amor àquela noite e foi especial. Acho que porque a amava.  Depois que fizemos amor, ela me fez uma massagem. Ah e foi tão bom. Ela era perfeita e não conseguia entender porque a traia. Mas ai eu lembrei — porque eu era um homem. E um homem é movido por seus extintos. E nesse sonho eu era um homem muito lógico e tudo fazia sentido, tudo era muito fácil. Pum! Eu estava numa quadra e jogava bola com meu filho de 11 anos. Lembro que lhe dava conselhos sobre as garotas. Lembro de gostar de ser pai. Eu também tinha uma filha e ela tinha 16 anos e namorava um rapazinho um ano mais velho que ela, cujo um dia nos foi apresentado em um jantar de família. Lembro-me de lhe ter perguntado: — Quais são suas intenções com minha filha? Eu lembro. Lembro de ter sido o homem da casa. Lembro de ter me importado.
Pum! Eu estava atrasado para o trabalho e minha mulher terminava de dar o nó na minha gravata. Peguei o jornal, beijei as crianças e abracei minha mulher. Entrei no carro, carro de vidros fumê. Provavelmente fumê porque tenho uma amante e não quero que ninguém a veja. Em fim, eu trabalhava para um jornal e ocupava um cargo importante. Entrei no escritório e fui direto para o banheiro. Havia um espelho que eu podia me enxergar. Fiquei nu e eu me olhava, me admirava. Eu era um homem! Tinha o cabelo curto (e era ótimo para tomar banho). Calo nos dedos, mãos grandes, costas largas, pés grandes. Meus braços e pernas tinham pelos e eu podia mijar em pé! Eu ria.
Pum!
De repente o cenário muda e eu estava num campo militar e fazia continências ao general. Eu não tinha mais 32 anos, tinha agora 18 e recém entrava para o exército. Lembro-me de ter raspado o cabelo e ter feito amigos. Conheci suas histórias. Aprendi a disciplina de um soldado. Fui para a 2ª Guerra Mundial e ainda me lembro do zunido agudo que as granadas faziam depois de explodir. E das balas de tiro que passavam em câmera lenta em frente aos meus olhos. Eu presenciei o horror. Aprendi a me camuflar e enxergar no escuro. Jamais vou esquecer a menina branca de neve no meio do campo nazista sendo executada, e aquele sangue que saia da sua boca... Ela me olhava. E eu também a olhava, sem reação. Eu me lembro do pavor, do desespero estampado na cara e no grito de cada um. E tudo acontecia em câmera lenta.
Os corpos de centenas de inocentes sendo empilhados. A neve fria e o sangue quente que eu ainda posso sentir em minhas mãos. Eu sabia que aquilo não foi uma guerra, foi puro assassinato.

Quando a guerra acabou todos voltaram para as suas famílias e tentaram esquecer o que aconteceu. Ninguém sabe da metade do que aconteceu naquele lugar. Foi o inferno. Um banho de sangue. E eu ainda ando armado. Por dois anos eu acordava ás 04h00min da manhã achando que tinha treinamento. Levei um tempo para superar, mas as coisas foram se ajeitando depois que me mudei. Lembro-me de já não achar tudo tão fácil como imaginava. Pum!
Eu estava usando um relógio de ouro no pulso e minhas mãos estavam enrugadas. Nossa, eu tinha 80 anos! Passei a língua pelos meus dentes e não eram meus dentes, era uma chapa. Eu ria. Eu me lembro de ser um escritor, mas como sofria do mal de Parkinson, não podia escrever, então era minha filha quem escrevia por mim. Minha filha que havia crescido e se tornado uma linda mulher. E meu filho hoje era um pintor renomado. E Ana minha esposa, continuava linda e ainda tinha os olhos castanhos mais meigos que já vi. Sempre íamos ver o pôr do sol nos domingos. Mas tínhamos que sair cedo porque caminhávamos bem devagar. Era a idade. Uma idade de muitas lembranças, conhecimento e entendimento sobre um pouco de tudo. Ah e eu tinha três netos. Ana e Ezequiel. Que eram filhos da minha filha. E Matheus, que era filho do meu filho. Eram crianças lindas. E eu me via nos seus olhos. Ana, que tinha nove anos, essa aprendia a tocar piano comigo. Ezequiel que tinha dez adorava ler e esse era muito curioso. Matheus, o mais novo, tinha seis anos e era muito arteiro. Mas também o mais apegado ao avô aqui. Adorava ouvir histórias e brincar de carrinhos perto da lareira.

Eu me lembro de me sentir completo. E feliz. Tinha a sensação de missão cumprida, principalmente quando olhava meus netos rindo e brincando, fruto do meu fruto sabe. E eu me sentia tão cheio de vida, que se a morte quisesse vir, que viesse! Eu me sentia pronto. Plantei minhas sementes e hoje elas florescem. A vida é um sonho, a morte é acordar. Quem já viveu muito sabe disso. Não é mórbido, mas é um ponto de conseguir aceitar que a vida é algo emprestado. E ainda danço com minha esposa na cozinha. Pum!
Abri a gaveta da estante perto da cama e encontrei minha antiga carteira e dentro dela ainda estava guardada a foto da minha amante e atrás da foto dela, estava escrito Ana... Ana?! Mas...
Pum! E de repente eu estava no recreio do colégio com outros adolescentes e eu também era um adolescente! Meu cabelo era liso e eu calçava um all star verde. E quando olhei para frente levei um soco bem no meio da cara de um garoto. Eu não sabia por que estava apanhando, mas fui para cima dele também. E no meio daquela confusão a diretora da escola nos levou para a detenção. E descobri que briguei com aquele garoto porque ele ficou com a garota que eu gostava. E quando fui ver quem ela era, era uma loirinha, de vestido longo e fita no cabelo, muito tímida, nem olhava para cima, com vergonha.
Eu reconheci aquele rosto, era a bela Ana, a dançarina da boate, minha futura amante! Só que nesse caso, a garota que eu sou apaixonado.
Pum! Minha mãe colocou gelo no meu olho direito que ficou inchado e dolorido pelo soco. Meus pais me deixaram de castigo por brigar na escola. Eu me lembro de ter discos de vinil na minha estante e posters de bandas espalhados pelas paredes. Eu tinha 14 anos.
Pum! Estava eu mais três colegas, na casa de algum deles, estudando matemática e Ana, a menina da escola, também estava lá. E me lembro da gente mais brincar do que estudar. Bolinhas de papel, rabiscos nas folhas do caderno. Mastigar chiclete, ouvir música alta, gibis... Ah tantas coisas, eu me divertia.
Ana era tímida, então falei com os outros para nos deixarem a sós. E ficamos sozinhos, estudando, Mas não resisti por muito tempo e a beijei. Ana sorriu. E eu também. Foi o meu primeiro beijo.
Nós namoramos e foi por muitos anos. E lembro de ser muito feliz com ela. Saíamos muito com os nossos amigos, íamos a shows, beber em postos de gasolina e ás vezes eu também pegava o carro escondido do meu pai e a levava ao cinema. Mas aos 18 anos as coisas mudaram, porque eu fui alistado para o exército. E lembro de Ana chorar muito por isso. Eu não sabia o que dizer. Estava apavorado e profundamente triste por ter que deixa-la. Ana queria até fugir comigo para que eu não fosse á guerra, mas eu não podia abandonar tudo e também não tínhamos dinheiro e nem para onde fugir. Pum!
Voltei da guerra depois de 5 anos. E para minha tristeza, Ana estava casada com outro. Lembro-me de ter chorado muito por ela. Eu a amava. Mas logo depois me casei com Ana, minha esposa. E sim, eu amava duas mulheres.
Mas Ana não foi dançarina por muito tempo, logo abriu um negócio próprio e se mudou para França. Mas nós sim, fomos amantes por muito tempo. Nós nos amávamos. Pum!
Eu estava sentado em uma cadeira muito grande e os meus pés não alcançavam o chão... Na verdade a cadeira não era grande, eu é que era pequeno, tinha cinco anos.
Minha mãe era quem me vestia e quase sempre dividia meu cabelo no meio. Me levava para a escola e me dava um beijo no rosto que ficava a marca do batom. Eu me lembro de jogar bola com meu pai, dele me empurrar no balanço e me ensinar a andar de bicicleta. Eu já sabia falar, ler e escrever, mas ainda não gostava de meninas. Meninas éca! Ah eu me lembro de jogar bolita com meus amigos, lutinha e carrinho. Eu gostava de quase tudo que era azul e não gostava de rosa, porque rosa era de menina rs. Eu me lembro da minha vida inteira.
Pum! De repente eu estava no lugar onde tudo começou, sentado na poltrona de couro velho e eu já não me sentia mais tonto. E comecei a notar que todas as mulheres do meu sonho se chamavam Ana e...
E eu acordei e voltei a minha natureza. Sou mulher! Senti certo alívio eu confesso. Mas ao mesmo tempo sentia uma confusão de emoções.
Eu que achava que tudo era fácil na vida de um homem, pude sentir a angústia, o amor, a culpa. Sentir o peso da responsabilidade e ainda sim permanecer em pé, permanecer forte e calado. Eu fui um homem e vivi sua realidade, sua natureza. Vejo minhas unhas pintadas agora e lembro de já ter mijado em pé! Eu ria! E eu lembro... Mas e Ana?
De fato eu conversei com Ana ontem á noite?
Eu a amo?
Ela é meu segredo ou eu sou teu segredo?
Não. Ana não existe.
Ana sou eu.
E será que eu ainda estou sonhando?
Não. Essa é a história de um sonho que eu não tive.
Ou melhor,
terei eternamente.


Por Stephanie Reichel

quarta-feira, 23 de maio de 2012


exóticamente linda essa menina


Anja Millen


E da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
O amor é quando a gente mora um no outro.



Floria Sigismondi




*-*


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Eu tenho sorte



Tenho sorte de tropeçar antes de cair um tombo. Ás vezes a gente lamenta por ter acabado. Mas nem percebe a sorte de nem ter começado. Foi bom. Foi bom sabe, foi bom pra todos os lados. Principalmente o meu. Lamentar pela fumaça que se vê atrás das montanhas, já sabendo que o pior aconteceu deus-me-livre! Nada disso, eu vi a casa pegar fogo e vi de perto, por isso sai tranquila e me salvei. Ai é bom acordar e saber que só foi um sonho. A gente nega fecha os olhos, arruma desculpas que justifiquem as atitudes do outro (ou a falta delas) porque ninguém gosta de ver a coisa como é, mas como eu gostaria que ela fosse. Ah eu gostaria.. Mas nada é por acaso. E meu coração esta intacto. É hora de velejar para outros lados. Focar naquilo que é realmente importante.
Mas que eu tenho sorte, isso eu tenho.

domingo, 13 de maio de 2012

sábado, 12 de maio de 2012


Que bonito, arte de vidro.

LINK: http://www.grahamcaldwell.com/


    Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos.

sábado, 5 de maio de 2012



Gostar de si mesmo, sem egoísmo. Apreciar as pessoas em volta. Cuidar da saúde mental e física. Gostar dos seus horários. Não ficar melancólico, mas guardar na lembrança as melhores coisas da vida. E não abrir mão de ser feliz. A busca da felicidade já justifica a existência.

bicão



Cabelos, muitos cabelos. E ruivos. E encaracolados.

Imaginação # Criatividade



A diferença de um desenho feito pela criatividade, é que a criatividade é impulsionada pela inspiração ou por uma ideia a partir de — de alguma coisa.
Já a imaginação é um nascimento. Quando a mente esta aberta, algo se cria instantaneamente, com ou sem inspiração. A mente faz nascer aquilo que supostamente não existe, por exemplo: é como olhar para céu e ver animais em formato de nuvem. Ás vezes eu simplesmente olho para a parede do banheiro e vejo um desenho, lá pronto. E é uma das coisas mais incríveis que a mente pode fazer. Nem sempre acontece isso, mas é lindo de ver a mente se expressar — nascer diante dos meus olhos. Dependendo do que vejo, até me emociono. É um fenômeno complexo de explicar sua raiz do por que, ainda mais em palavras simples (até eu mesma não compreendo esse princípio). Mas em fim, independente do desenho ser criado pela imaginação ou pela criatividade, nada é feito de forma intencional, simplesmente a coisa vem ou a coisa sai.